A CIÊNCIA EM UMA ENCRUZILHADA HISTÓRICA: O LIMITE DA LIBERDADE CIENTÍFICA. (PDF)

JOHN FONTENELE ARAUJO1

     
 
A quantidade de publicações científicas hoje é assustadora, por outro lado, a facilidade de obter estas informações é animadora para o avanço da ciência. Com a internet, mais que lutar pelo acesso livre as publicações científicas2 , devemos construir uma nova fase da ciência em que todos possam ter acesso aos dados experimentais, a verdadeira fonte de informação. É esta proposta que discutiremos neste textos.

 
    A ciência como atividade humana tem o objetivo de produzir conhecimento novo, conhecimento este que surge dialeticamente de um conhecimento velho. Além disso, a ciência é também caracterizada, e de certa forma a diferencia de outras atividades humana, pelo fato deste conhecimento novo surgir a partir de dados experimentais e as conclusões sobre estes dados [que um(s) cientista(s) elabora(m)] são discutidas livremente pela comunidade científica. Desta forma, o limite para produzir um conhecimento novo, fazer ciência, é ter acesso aos dados experimentais (fazer um experimento ou indiretamente atraves da leitura de um artigo cientifico ou participando de uma reunião científica). Também é necessário ter o domínio dos conceitos relacionados com a área para poder intepretar os dados e gerar o novo conhecimento. Podemos então simplificar o fazer ciência como a capacidade de dominar as informações, tanto as informações “velhas” (conhecimento da área) quanto informações “novas” (dados experimentais).
    Até o século XIX a ciência era produzida individualmente, pelo cientista, depois passamos para a fase do laboratório e agora estamos na fase da redes de grupos de pesquisa. Durante todas estas fases a ciência foi caracterizada por uma certa democracia do conhecimento. O termo democracia é utilizado aqui no sentido de que o conhecimento está disponível para todos. Por exemplo, Marx teve acesso a obra de Adam Smith para poder estudar a dinâmica do capitalismo.  Mas por outro lado, a disponibilidade dos novos dados sempre esteve restrita a quem tem condições de produzí-los.
    Este foi um dos fatores que separou a ciência da tecnologia, pois a ciência manteve uma cultura democratica da informação, enquanto a tecnologia passou para um prática de apropriação privada do conhecimento, disponibilizando apenas o seu produto final. Por isso a ciência continua sendo financiada com recursos públicos e a tecnologia com recursos privados.
Com estas considerações chegamos ao ponto em que podemos falar do limite da ciência: ter informações. Este limite pode ser exemplificado através da descoberta da estrutura do ácido dexoribonucléico (ADN),  como um exemplo polêmico da história.  Foi exatamente através da apropriação (para alguns o melhor termo seria roubo) das informações de cristalografia através de técnicas de decifração por raios X, produzidas pela pesquisadora Rosalind Franklin (1920-1957), que Waston e Crick propuseram o modelo estrutural de dupla hélice para o ADN (um novo conhecimento). Toda a produção cientifica tem sido realizada por quem possui as informações e por isso tem a capacidade de produzir novo conhecimento (ciência).


Rosalind Franklin   James Watson
Rosalind Franklin                      James Watson

O exemplo da descoberta do ADN e outros, mostram que nem sempre a ciência foi democratica, todavia podemos generalizar que a atividade científica tem sido predominantemente coletiva e que os limites da ciência estão mais relacionados à ausência de informações do que à negação de informações.
Agora chegamos a uma nova fase do fazer ciência, uma fase que chamamos de “ciência comuna”. Afinal, agora dispomos de meios – internet – em que todos podemos ter acesso as informações, tanto as “velhas” quanto as “novas”. Um exemplo disto é a existência do GenBank , base de dados sobre o genoma em que qualquer cientista, ou qualquer cidadão, pode acessar estas informações e produzir um conhecimento novo. Poucos perceberam o que representa esta nova fase, mas o genbank é uma oportunidade de fazer pesquisa superando a negação da informação devido a ausencia de tecnologia de ponta (é claro que temos uma tecnologia mínima, como o acesso a internet e programas de análise). Este é o grande passo no sentido de democratizar o acesso a informação na ciência.

Convido o leitor a fazer um exercício de futurologia: imaginemos que todos nós cientistas sejamos obrigados a publicar na internet os dados brutos das nossas pesquisas, para que qualquer pesquisador/cidadão possa analisá-los e tirar conclusoes, conclusões estas que podem ser iguais ou mais adequadas que as nossas, e assim estariamos produzindo um conhecimento novo coletivamente.
Discutindo esta proposta com alguns colegas, ouvi muitas reações em contrário a disponibilização dos dados na internet. A principal crítica é que isto levaria a um desistímulo do fazer ciência, pois realizar um experimento e produzir os dados não seria uma garantia de ser o autor das conclusoes mais adecuadas do novo conhecimento. Nao vejo que isto ocorreria, pois ao realizar um experimento nunca temos esta garantia e por outro lado não é um pouco isto que fazemos com os dados dos pós-graduandos? A ciência deve ou nãõo continuar democrática? Afinal, se a ciência é financiada com recursos publicos os dados brutos gerados por esta pesquisa não devem ser de domínio público?
Com a internet, a ciência está em uma encruzilhada histórica, ou nós, cientistas, passamos a publicar além dos nossos trabalhos, os dados brutos de nossas pesquisas e assim passamos para a fase da “ciência comuna”, e com isso permitiremos que o conhecimento científico avance, ou estaremos criando uma outra fase, a do “imperialismo científico” no qual o conhecimento científico seja apropriado somente pelo “donos” dos meios de produção (tecnologia).
A opção pela “ciência comuna” é uma opção pela mudaça da velha ciência centrada no cientista e na técnica para a nova ciência centrada na informação (dados experimentais) e na criatividade. Talvez, assim estaremos evitando casos polêmicos como o da descoberta do ADN ou da seleção natural.

1-Doutor em Neurociências - Professor de Fisiologia UFRN. Pesquisador CNPq.
2-   A comunidade cientifica internacional circulou uma carta aberta solicitando que o acesso as publicaçoes cientificas fosse livre. Esta carta foi assinada por 31106 cientistas de 182 países (1415 do Brasil).Uma copia pode ser lida no site Public Library of Science